Tempo

De Dicionrio de Potica e Pensamento

1

O tempo é uma questão. E como questão não podemos viver fora do tempo nem sem tempo. Em si, ele, não como conceito, mas como questão, é o tempo poético, o tempo do existir, fazendo-se, o tempo em sua densidade máxima, porque é o tempo destinado a cada ser vivente. É o tempo do ser, em que SE dá o ser e, por isso, é inclassificável, só experienciável como tempo poético sendo e presentificando-se. Por isso, o tempo é a quarta dimensão do espaço, como afirmam os físicos. Porém, tal tempo não é o tempo tripartido, porque o tempo tem também uma quarta dimensão: é a linguagem (1). Esta é o tempo poético. Se o tempo é a quarta dimensão do espaço e a linguagem a quarta dimensão do tempo, a linguagem é o fundar de tempo e espaço. Esse fundar é o fundamentar o lugar. Lugar ou 'campo' é mundo. A linguagem é mundo, porque o mundo é a quarta dimensão do tempo.


- Manuel Antônio de Castro


Referência:
(1) Cf. HEIDEGGER, Martin. "Tempo e ser". In: ______. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, pp. 255-72.


2

"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é, contudo, nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um ponto exótico que não pode ser repartido, podendo, entretanto, prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo" (1). Todo capítulo 9 de Lavoura arcaica (1) trata do tempo, de uma maneira ampla e profunda. Pensado a partir do viver/existir é o próprio viver em suas múltiplas faces tanto do cotidiano quanto do transcendente. É um pensar poético no tempo, com o tempo e para o tempo. Para o leitor torna-se uma fonte necessária de consulta. No cap. 17 retoma a temática do tempo. O romance centrado nas questões humano-familiares, tendo a casa como imagem-questão central, retoma uma temática explicitamente ligada à mais antiga tradição ocidental: o genos, linha central das tragédias em torno da personagem-questão Édipo, ou seja, do ser humano, de todo ser humano em todos os tempos.


- Manuel Antônio de Castro


Referência:
(1) NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 53.

3

"Vigente é o que dura - o que vige a partir e no âmbito do desencobrimento. Por isso, pertence ao vigorar à presença, não somente desencobrimento, mas também presente. Este presente imperante no vigorar é um caráter do tempo. Seu modo próprio de ser, pré, jamais se deixa apreender através do conceito tradicional de tempo" (1).


Referência:
(1) HEIDEGGER, Martin. "O que quer dizer pensar?". In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 123.


Ver também:


4

Disse Santo Agostinho: "O que é o tempo? Se ninguém mo perguntar eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei" (1). Isto porque vivemos no e somos tempo, de tal maneira que ele sempre se nos dá ao mesmo tempo que se nos retrai, oculta. Desta tensão, surgem as diferentes experiências do tempo: "Cada época se identifica com uma cisão do tempo, e na nossa a presença constante das utopias revolucionárias denuncia o lugar privilegiado que tem o futuro para nós. O passado não é melhor que o presente: a perfeição não está atrás de nós, e sim na frente, não é um paraíso abandonado, mas um território que devemos colonizar, uma cidade que precisa ser construída.
"O cristianismo opôs à visão do tempo cíclico da antiguidade greco-romana um tempo linear, sucessivo e irreversível, com um começo, um fim, da queda de Adão e Eva ao Juízo Final. Diante desse tempo histórico e mortal houve outro tempo sobrenatural, invulnerável diante da morte e da sucessão: a Eternidade. Por isso, o único episódio decisivo da história terrestre foi o da Redenção: o descenso de Cristo e o seu sacrifício representam a interseção entre a Eternidade e a temporalidade, o tempo recessivo e moral dos homens e o tempo do mais além, que não muda nem sucede, idêntico a si próprio sempre. A Idade Moderna começa com a crítica à Eternidade cristã e com a aparição de outro tempo. De um lado, o tempo finito do cristianismo, com um começo e um fim, se converte num tempo quase infinito da evolução natural e da história, aberto em direção do futuro. De outro lado, a modernidade desvaloriza a Eternidade: a perfeição se translada para o futuro, não no outro mundo, mas neste. Basta lembrar a viagem célebre de Hegel: a rosa da razão está crucificada no presente" (2).


- Manuel Antônio de Castro


Referência:
(1) AGOSTINHO, Confissões, XI, 17.
(2) PAZ, Octávio. "Ruptura e convergência". In: A outra voz. São Paulo: Siciliano, 2001, pp. 36-7.


Ver também:

5

"[...] o tempo mais justo não é aquele que queremos que aconteça, mas o que acontece sem a permissão de nossa vontade e nos encaminha serena e ferozmente ao horizonte de nossa própria habitação" (1).


Referência:
(1) PESSANHA, Fábio Santana. "O rio como insólito na terceira margem do homem". In: GARCÍA, Flavio; PINTO, Marcello de Oliveira; MICHELLI, Regina (orgs.). O insólito em questão – Anais do V Painel Reflexões sobre o Insólito na narrativa ficcional/ I Encontro Nacional Insólito como Questão na Narrativa Ficcional. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2010, p. 33.


Ver também:


6

Nenhum conceito dá conta da questão tempo. Não foi sem sentido que os gregos mostraram o tempo como devorador dos seus filhos, ou seja, o tempo é a morte vigorando.


- Manuel Antônio de Castro


7

O vivente só vive e sabe que vive e pensa a vida porque sua vida como vivente já vigora na vida como tempo e este como unidade ou sentido. A sucessividade de nossa vida nunca nos aparece nem como um amontoado desconexo de momentos nem como uma sequência linear e causal de vivências. Vivemos de surpresas inesperadas. Isso é o sentido não a explicação racional e muito menos o significado. O inesperado é a fonte produtora de tudo que se espera e não se espera. Portanto, a vida do vivente só é possível porque tempo é vida, que é unidade, que é o mesmo, que é morte.


- Manuel Antônio de Castro


8

"Meu Deus como o tempo passa
Dizemos de quando em quando
Afinal o tempo fica
A gente é que vai passando" (1).


(1) No filme de Carlos Saura Fados. "Fado menor".

9

"Nâo existem, propriamente falando, três tempos: o passado, o presente e o futuro, mas somente três presentes: o presente do passado, o presente do presente, o presente do futuro" (1).


Referência:
(1) AGOSTINHO. Confissões, XI, 20.


10

No filme de Wim Wenders Tão perto... tão longe, há uma grande tematização do tempo. Chama a atenção o contraste entre o que a cultura americana diz sobre o tempo, bem no seu cerne capitalista: "Tempo é dinheiro". O diretor alemão, para constrastar com essa redução medíocre, afixa na parede de um Museu a seguinte frase: "Zeit ist Kunst", ou seja, "tempo é arte". E criou também um personagem-questão para ser pensado o tempo, cujo nome é "Ligeirinho". Num momento crucial do filme diz ele: "O tempo é curto. Para a fuinha o tempo é traiçoeiro. Para o heroi o tempo é heroico. Para a prostituta o tempo é apenas outra peça. Se você for gentil, o tempo é gentil. Se você estiver com pressa, o tempo voa. O tempo é o servo se você for seu mestre. O tempo é seu deus, se você for seu cão. Nós somos os criadores do tempo, as vítimas do tempo e os assassinos do tempo. O tempo é valioso. Você é o relógio".


- Manuel Antônio de Castro


11

“O tempo é teia que enlaça e amordaça o falatório de um momento. É rede que apanha a ruptura das divisões e molda nos seus nós o entrecruzamento de espaços: memória” (1).


Referência:
(1) PESSANHA, Fábio Santana. A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2013, p. 104.
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