Forma
De Dicionrio de Potica e Pensamento
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| - | : [[Forma]] [[é]] um dos [[conceitos]] mais complexos, pois pode [[ser]] tomado em muitos sentidos: ''[[eîdos]]'', ''[[morphé]]'', [[corpo]], [[ente]], [[objeto]], [[utensílio]], [[obra]], [[unidade]], [[organismo]]. Martin [[Heidegger]], em '''A [[Origem]] da [[Obra de Arte]]'''(1) trata da [[forma]] como ''Gestalt''. A melhor [[tradução]] desta [[palavra]] alemã é, certamente, [[figura]], mas ligada ao verbo latino ''fingere''. Nesse [[ensaio]], ele critica o [[conceito]] de [[forma]], ligado à [[interpretação]] da [[realidade]] tendo em vista o [[ente]] [[utensílio]] (a [[forma]] [[é]] uma das quatro [[causas]]). Por isso, a [[concepção]] da [[arte]] baseada nas [[formas]] pode gerar grandes [[problemas]] mais do que indicar uma [[reflexão]] sobre o [[mistério]] que [[é]] a [[obra de arte]]. A [[figura]] como tal [[é]] a [[obra]], mas esta [[é]] pensada como a tensão de [[mundo]] e [[terra]]. No [[ensaio]] "A coisa" (2), [[Heidegger]] pensa a [[figura]] em [[tensão]] com o [[vazio]]. | + | : [[Forma]] [[é]] um dos [[conceitos]] mais complexos, pois pode [[ser]] tomado em muitos sentidos: ''[[eîdos]]'', ''[[morphé]]'', [[corpo]], [[ente]], [[objeto]], [[utensílio]], [[obra]], [[unidade]], [[organismo]]. Martin [[Heidegger]], em '''A [[Origem]] da [[Obra]] de [[Arte]]'''(1) trata da [[forma]] como ''Gestalt''. A melhor [[tradução]] desta [[palavra]] alemã é, certamente, [[figura]], mas ligada ao verbo latino ''fingere''. Nesse [[ensaio]], ele critica o [[conceito]] de [[forma]], ligado à [[interpretação]] da [[realidade]] tendo em vista o [[ente]] [[utensílio]] (a [[forma]] [[é]] uma das quatro [[causas]]). Por isso, a [[concepção]] da [[arte]] baseada nas [[formas]] pode gerar grandes [[problemas]] mais do que indicar uma [[reflexão]] sobre o [[mistério]] que [[é]] a [[obra de arte]]. A [[figura]] como tal [[é]] a [[obra]], mas esta [[é]] pensada como a tensão de [[mundo]] e [[terra]]. No [[ensaio]] "A coisa" (2), [[Heidegger]] pensa a [[figura]] em [[tensão]] com o [[vazio]]. |
: Jaa Torrano, por sua vez, se aproxima desse [[conceito]] ao definir assim [[forma]]: "[[É]] lícito recorrer à [[palavra]] '[[forma]]' para explicitar-se a noção de Deus(es), desde que se entenda por '[[forma]]' o [[princípio]] que possibilita toda manifestação. O que se manifesta na manifestação [[é]] o que por sua [[forma]] mesma ingressa no âmbito de ilatência. Eis o modo mais decisivo de os [[gregos]] antigos pensarem a [[verdade]]: ilatência, ''[[alétheia]]''" (3). | : Jaa Torrano, por sua vez, se aproxima desse [[conceito]] ao definir assim [[forma]]: "[[É]] lícito recorrer à [[palavra]] '[[forma]]' para explicitar-se a noção de Deus(es), desde que se entenda por '[[forma]]' o [[princípio]] que possibilita toda manifestação. O que se manifesta na manifestação [[é]] o que por sua [[forma]] mesma ingressa no âmbito de ilatência. Eis o modo mais decisivo de os [[gregos]] antigos pensarem a [[verdade]]: ilatência, ''[[alétheia]]''" (3). | ||
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| - | : "Antecipando, podemos dizer que: a ''[[morphé]]'' é "dar-a-ver"; mais precisamente manter-se nisto que dá a ver, e compor-se nisso; numa palavra: a [[composição]] que se instala no [[aspecto]]. Em consequência, quando em seguida se trata simplesmente de 'aspecto', tratar-se-á sempre do aspecto que ''se'' dá a si-mesmo, e na [[medida]] em que se dá e se entrega nisto que cada vez é por um certo tempo (o 'aspecto' de 'mesa' nesta mesa aqui). Isto que cada vez é por algum [[tempo]], chama-se assim porque é enquanto particular que se demora no aspecto do qual guarda o modo de [[permanência]] (a entrada na [[presença]]), e que é a partir de uma tal [[salvaguarda]] do aspecto que nele se mantém e nele sobressai - em grego: que ele ''é''" (1). (Trad. Manuel Antônio de Castro). | + | : "Antecipando, podemos dizer que: a ''[[morphé]]'' [[é]] "dar-a-ver"; mais precisamente manter-se nisto que dá a ver, e compor-se nisso; numa palavra: a [[composição]] que se instala no [[aspecto]]. Em consequência, quando em seguida se trata simplesmente de '[[aspecto]]', tratar-se-á [[sempre]] do [[aspecto]] que ''se'' dá a si-mesmo, e na [[medida]] em que se dá e se entrega nisto que cada vez [[é]] por um certo [[tempo]] (o '[[aspecto]]' de 'mesa' nesta mesa aqui). Isto que cada vez [[é]] por algum [[tempo]], chama-se assim porque [[é]] enquanto particular que se demora no [[aspecto]] do qual guarda o modo de [[permanência]] (a entrada na [[presença]]), e que [[é]] a partir de uma tal [[salvaguarda]] do [[aspecto]] que nele se mantém e nele sobressai - em [[grego]]: que ele ''[[é]]''" (1). (Trad. Manuel Antônio de Castro). |
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| - | : "O que se põe em seus [[limite |limites]], integrando-os em sua perfeição e assim se mantém, possui [[forma]], ''[[morphé]]''. A [[forma]], entendida como os gregos a entendiam, retira sua essencialização de um pôr-se-a-si-mesma-dentro-dos-[[limites]] (''Sich-in-die-Grenze-stellen'')" (1). A [[forma]], entendida dentro do [[pensamento]] grego, está diretamente ligada à [[questão]] do ''[[télos]]'' e do [[limite]]. ''[[Télos]]'' se traduz geralmente como [[fim]]: "Mas 'fim' não é entendido aqui no sentido negativo, como se alguma [[coisa]] já não continuasse e sim findasse e cessasse de todo. [[Fim]] é conclusão no sentido do grau supremo de [[plenitude]]. No [[sentido]] de [[perfeição]]. Pois bem, [[limite]] e [[fim]] constituem aquilo em que o [[ente]] principia a [[ser]]. São os [[princípio|princípios]] do [[ser]] de um [[ente]]" (2). | + | : "O que se põe em seus [[limite |limites]], integrando-os em sua [[perfeição]] e assim se mantém, possui [[forma]], ''[[morphé]]''. A [[forma]], entendida como os [[gregos]] a entendiam, retira sua essencialização de um pôr-se-a-si-mesma-dentro-dos-[[limites]] (''Sich-in-die-Grenze-stellen'')" (1). A [[forma]], entendida dentro do [[pensamento]] [[grego]], está diretamente ligada à [[questão]] do ''[[télos]]'' e do [[limite]]. ''[[Télos]]'' se traduz geralmente como [[fim]]: "Mas 'fim' não [[é]] entendido aqui no sentido negativo, como se alguma [[coisa]] já não continuasse e sim findasse e cessasse de [[todo]]. [[Fim]] [[é]] conclusão no [[sentido]] do grau supremo de [[plenitude]]. No [[sentido]] de [[perfeição]]. Pois bem, [[limite]] e [[fim]] constituem aquilo em que o [[ente]] principia a [[ser]]. São os [[princípio|princípios]] do [[ser]] de um [[ente]]" (2). |
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| - | : (1) [[HEIDEGGER]], Martin. '''Introdução à [[metafísica]]. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969, p. 88.''' | + | : (1) [[HEIDEGGER]], Martin. '''Introdução à [[metafísica]]. Rio de Janeiro: [[Tempo]] Brasileiro, 1969, p. 88.''' |
: (2) '''Idem, p. 88.''' | : (2) '''Idem, p. 88.''' | ||
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| - | : O [[conceito]] de [[forma]] é difícil e complexo, a partir sobretudo de Aristóteles. A [[compreensão]] dela como [[algo]] [[objetivo]] e definido é um [[equívoco]]. [[Platão]], ao [[pensar]] a [[obra]] como um [[corpo]] vivo, já mostra uma instabilidade da [[forma]] (embora não pense, talvez aparentemente, o [[código]]). Daí Emmanuel Carneiro Leão encaminhar a [[compreensão]] da [[forma]] destacando o [[vigor]], que, certamente, está na tensão [[limite]]/[[não-limite]], [[verdade]]/[[não-verdade]]. Diz: "ambas impregnam toda [[forma]]. [[Forma]] aqui não se opõe nem se exclui, mas se compõe e inclui o [[conteúdo]]. A [[forma]] é o [[vigor]] da [[unidade]] do candelabro articulada nos primeiros versos. Nesse [[vigor]] a [[poesia]] faz brilhar a [[beleza]] do candelabro. Embora não acenda o candelabro, ela permite que apareça a [[luz]] de sua [[beleza]]" (1). | + | : O [[conceito]] de [[forma]] [[é]] difícil e complexo, a partir sobretudo de Aristóteles. A [[compreensão]] dela como [[algo]] [[objetivo]] e definido [[é]] um [[equívoco]]. [[Platão]], ao [[pensar]] a [[obra]] como um [[corpo]] vivo, já mostra uma instabilidade da [[forma]] (embora não pense, talvez aparentemente, o [[código]]). Daí Emmanuel Carneiro Leão encaminhar a [[compreensão]] da [[forma]] destacando o [[vigor]], que, certamente, está na tensão [[limite]]/[[não-limite]], [[verdade]]/[[não-verdade]]. Diz: "ambas impregnam toda [[forma]]. [[Forma]] aqui não se opõe nem se exclui, mas se compõe e inclui o [[conteúdo]]. A [[forma]] [[é]] o [[vigor]] da [[unidade]] do candelabro articulada nos primeiros versos. Nesse [[vigor]] a [[poesia]] faz brilhar a [[beleza]] do candelabro. Embora não acenda o candelabro, ela permite que apareça a [[luz]] de sua [[beleza]]" (1). |
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| - | : Todo [[vivente]] é uma [[forma]] da [[Vida]], todo [[sendo]] é uma [[forma]] do [[Ser]] e de [[ser]], todo [[real]] é uma [[forma]] da [[realidade]]. Porém, só há [[forma]] [[poética]] quando nos [[viventes]], nos sendos, nos reais, se fizer [[presente]] [[concretamente]] a [[linguagem]] e [[sentido]] do [[Ser]], [[horizonte]] de [[referência]] e [[sentido]] das [[formas]]. A tal [[referência]] os [[gregos]] denominaram ''[[morphé]]''. | + | : Todo [[vivente]] [[é]] uma [[forma]] da [[Vida]], [[todo]] [[sendo]] [[é]] uma [[forma]] do [[Ser]] e de [[ser]], [[todo]] [[real]] [[é]] uma [[forma]] da [[realidade]]. Porém, só há [[forma]] [[poética]] quando nos [[viventes]], nos sendos, nos reais, se fizer [[presente]] [[concretamente]] a [[linguagem]] e [[sentido]] do [[Ser]], [[horizonte]] de [[referência]] e [[sentido]] das [[formas]]. A tal [[referência]] os [[gregos]] denominaram ''[[morphé]]''. |
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| - | : "A [[forma]] é uma linha instável porque a [[realidade]], em seu [[vigorar]] incessante, em seu mudar irrefutável, não pode jamais ser reduzida a um [[conceito]] e/ou a uma [[essência]] abstrata, generalizante. A [[forma]] se baseia na concepção da [[obra]] como um [[organismo]], um [[objeto]], cuja [[ação]] se determina pelo funcionar do [[sistema]] ou pela [[teoria]] em que se estabelece o que [[é]] [[organismo]]" (1). | + | : "A [[forma]] [[é]] uma linha instável porque a [[realidade]], em seu [[vigorar]] incessante, em seu mudar irrefutável, não pode jamais [[ser]] reduzida a um [[conceito]] e/ou a uma [[essência]] abstrata, generalizante. A [[forma]] se baseia na concepção da [[obra]] como um [[organismo]], um [[objeto]], cuja [[ação]] se determina pelo funcionar do [[sistema]] ou pela [[teoria]] em que se estabelece o que [[é]] [[organismo]]" (1). |
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| - | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O [[mito]] de '''[[Cura]] e o [[ser humano]]". In: -----. [[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 226.''' | + | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O [[mito]] de '''[[Cura]] e o [[ser humano]]". In: -----. [[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: [[Tempo]] Brasileiro, 2011, p. 226.''' |
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| - | : "Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma , nada me existe. E - se a [[realidade]] é mesmo que nada existiu?! quem sabe [[nada]] me aconteceu? Só posso [[compreender]] o que me acontece, mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe [[nada]] existiu" (1). | + | : "Mas [[é]] que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma [[forma]] , nada me existe. E - se a [[realidade]] [[é]] [[mesmo]] que [[nada]] existiu?! quem sabe [[nada]] me aconteceu? Só posso [[compreender]] o que me acontece, mas só acontece o que [[eu]] compreendo - que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe [[nada]] existiu" (1). |
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| - | : "Para e no [[sagrado]] é estranha e inadmissível a distinção de superior e inferior. E é então que ele se distancia cada vez mais, um distanciamento que consiste, em verdade, no seu [[esquecimento]] e perda de [[sentido]]. O [[esquecimento]] do [[ser]], do [[sentido]] do que somos, é o [[esquecimento]] do [[sagrado]]. Que é a [[arte]] hoje senão o testemunho pungente desse [[esquecimento]]? Assim se pensa. Mas não seria a [[verdadeira]] [[arte]] o testemunho vigoroso da [[presença]] constante do [[sagrado]], pois não é a [[essência]] da [[arte]] o [[sagrado]]? Quanta [[obra de arte]] vazia, tentando, inutilmente, preencher esse [[esquecimento]] pelo [[jogo]] fútil e mirabolante das [[formas]] técnicas. Mas ainda serão essas [[obras]] [[obras de arte]]? Não serão meros [[jogos]] formais que fazem a alegria e fortuna dos donos de galerias?" (1). | + | : "Para e no [[sagrado]] [[é]] estranha e inadmissível a distinção de superior e inferior. E [[é]] então que ele se distancia cada vez mais, um distanciamento que consiste, em verdade, no seu [[esquecimento]] e perda de [[sentido]]. O [[esquecimento]] do [[ser]], do [[sentido]] do que somos, é o [[esquecimento]] do [[sagrado]]. Que é a [[arte]] hoje senão o testemunho pungente desse [[esquecimento]]? Assim se pensa. Mas não seria a [[verdadeira]] [[arte]] o testemunho vigoroso da [[presença]] constante do [[sagrado]], pois não é a [[essência]] da [[arte]] o [[sagrado]]? Quanta [[obra de arte]] vazia, tentando, inutilmente, preencher esse [[esquecimento]] pelo [[jogo]] fútil e mirabolante das [[formas]] técnicas. Mas ainda serão essas [[obras]] [[obras de arte]]? Não serão meros [[jogos]] formais que fazem a alegria e fortuna dos donos de galerias?" (1). |
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| - | : "A [[questão]] [[narrativa]] deve ser [[referenciada]] às [[questões]] e não e jamais às [[formas]], porque estas não passam do que no [[vigorar]] da [[presença]] implica a instável linha do [[limite]]. A [[forma]] é uma linha instável porque a [[realidade]], em seu [[vigorar]] incessante, em seu [[mudar]] irrefutável, não pode jamais ser reduzida a um [[conceito]] e / ou a uma [[essência]] [[abstrata]], generalizante. A [[forma]] se baseia na [[concepção]] da [[obra]] como [[organismo]], um [[objeto]], cuja [[ação]] se determina pelo [[funcionar]] do [[sistema]] ou pela [[teoria]] em que se estabelece o que é [[organismo]]" (1). | + | : "A [[questão]] [[narrativa]] deve [[ser]] [[referenciada]] às [[questões]] e não e jamais às [[formas]], porque estas não passam do que no [[vigorar]] da [[presença]] implica a instável linha do [[limite]]. A [[forma]] [[é]] uma linha instável porque a [[realidade]], em seu [[vigorar]] incessante, em seu [[mudar]] irrefutável, não pode jamais [[ser]] reduzida a um [[conceito]] e / ou a uma [[essência]] [[abstrata]], generalizante. A [[forma]] se baseia na [[concepção]] da [[obra]] como [[organismo]], um [[objeto]], cuja [[ação]] se determina pelo [[funcionar]] do [[sistema]] ou pela [[teoria]] em que se estabelece o que [[é]] [[organismo]]" (1). |
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| - | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O [[mito]] de [[Cura]] e o [[ser humano]]". In: .... .'''[[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 226.''' | + | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O [[mito]] de [[Cura]] e o [[ser humano]]". In: .... .'''[[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: [[Tempo]] Brasileiro, 2011, p. 226.''' |
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| - | : "Toda [[presença]], [[operar]] da [[palavra cantada]], enquanto [[ritmo]], se faz presente como [[vigorar]] [[poético]] manifestativo, como [[doação]] ([[presente]]). Por isso, toda [[forma]], enquanto [[poética]], é [[musical]]. A [[palavra cantada]] não é algo que acontece ou não em nossa [[vida]], somos [[radicalmente]] [[musicais]]" (1). | + | : "Toda [[presença]], [[operar]] da [[palavra cantada]], enquanto [[ritmo]], se faz presente como [[vigorar]] [[poético]] manifestativo, como [[doação]] ([[presente]]). Por isso, toda [[forma]], enquanto [[poética]], [[é]] [[musical]]. A [[palavra cantada]] não [[é]] [[algo]] que acontece ou não em nossa [[vida]], somos [[radicalmente]] [[musicais]]" (1). |
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| - | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "[[Ulisses]] e a [[Escuta]] do [[Canto]] das [[Sereias]]”. In: -----. '''[[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 180.''' | + | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "[[Ulisses]] e a [[Escuta]] do [[Canto]] das [[Sereias]]”. In: -----. '''[[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: [[Tempo]] Brasileiro, 2011, p. 180.''' |
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Edição atual tal como 15h47min de 17 de Novembro de 2025
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- Forma é um dos conceitos mais complexos, pois pode ser tomado em muitos sentidos: eîdos, morphé, corpo, ente, objeto, utensílio, obra, unidade, organismo. Martin Heidegger, em A Origem da Obra de Arte(1) trata da forma como Gestalt. A melhor tradução desta palavra alemã é, certamente, figura, mas ligada ao verbo latino fingere. Nesse ensaio, ele critica o conceito de forma, ligado à interpretação da realidade tendo em vista o ente utensílio (a forma é uma das quatro causas). Por isso, a concepção da arte baseada nas formas pode gerar grandes problemas mais do que indicar uma reflexão sobre o mistério que é a obra de arte. A figura como tal é a obra, mas esta é pensada como a tensão de mundo e terra. No ensaio "A coisa" (2), Heidegger pensa a figura em tensão com o vazio.
- Jaa Torrano, por sua vez, se aproxima desse conceito ao definir assim forma: "É lícito recorrer à palavra 'forma' para explicitar-se a noção de Deus(es), desde que se entenda por 'forma' o princípio que possibilita toda manifestação. O que se manifesta na manifestação é o que por sua forma mesma ingressa no âmbito de ilatência. Eis o modo mais decisivo de os gregos antigos pensarem a verdade: ilatência, alétheia" (3).
- Referências:
- (1) HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Trad. Idalina Azevedo da Silva e Manuel Antônio de Castro. Lisboa: Edições 70, 2008.
- Ver também:
- * Belo
2
- "Antecipando, podemos dizer que: a morphé é "dar-a-ver"; mais precisamente manter-se nisto que dá a ver, e compor-se nisso; numa palavra: a composição que se instala no aspecto. Em consequência, quando em seguida se trata simplesmente de 'aspecto', tratar-se-á sempre do aspecto que se dá a si-mesmo, e na medida em que se dá e se entrega nisto que cada vez é por um certo tempo (o 'aspecto' de 'mesa' nesta mesa aqui). Isto que cada vez é por algum tempo, chama-se assim porque é enquanto particular que se demora no aspecto do qual guarda o modo de permanência (a entrada na presença), e que é a partir de uma tal salvaguarda do aspecto que nele se mantém e nele sobressai - em grego: que ele é" (1). (Trad. Manuel Antônio de Castro).
- Referência:
- (1) HEIDEGGER, Martin. "Comment se détermine la physis". In: Questions II. Paris: Gallimard, 1968, p. 234.
3
- "O que se põe em seus limites, integrando-os em sua perfeição e assim se mantém, possui forma, morphé. A forma, entendida como os gregos a entendiam, retira sua essencialização de um pôr-se-a-si-mesma-dentro-dos-limites (Sich-in-die-Grenze-stellen)" (1). A forma, entendida dentro do pensamento grego, está diretamente ligada à questão do télos e do limite. Télos se traduz geralmente como fim: "Mas 'fim' não é entendido aqui no sentido negativo, como se alguma coisa já não continuasse e sim findasse e cessasse de todo. Fim é conclusão no sentido do grau supremo de plenitude. No sentido de perfeição. Pois bem, limite e fim constituem aquilo em que o ente principia a ser. São os princípios do ser de um ente" (2).
- Referência:
- (1) HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969, p. 88.
- (2) Idem, p. 88.
4
- Heidegger critica muito a definição do ente entendido como forma e matéria para apreender a essência da obra de arte. Mas o conceito principal é forma. No entanto, o abismo já constitui uma crítica muito profunda da forma. Uma consulta a Merleau-Ponty fornece dados que ajudam a perceber a complexidade da coisa através da reflexão sobre conceitos que são copertinentes (e o problema da proximidade e distância também entram junto a essa complexidade de conceitos). Não podemos pensar a forma separada do espaço e do tempo. Mas junto com estes vêm os outros conceitos: profundidade, volume, luminosidade, visibilidade, ponto, horizonte, lugar, linguagem, coisa, perspectiva, observador. Diz o texto:
- "Assim compreendida, a profundidade é mais propriamente a experiência da reversibilidade das dimensões, de uma 'localidade' global onde tudo está a um só tempo, cuja altura, cuja largura e cuja distância são abstratas, de uma voluminosidade que se exprime com uma palavra dizendo que uma coisa está lá. Quando Cézanne procura a profundidade, é essa deflagração do Ser que ele procura" (1).
- Experiência e ente talvez reúnam todos os conceitos em torno da forma. A questão da forma abordada por Merleau-Ponty parte já dos conceitos elaborados pela modernidade. Já Heidegger mostra que esses conceitos se afastam do que os gregos entendiam por morphé.
- Referência:
- Ver também:
5
- O conceito de forma é difícil e complexo, a partir sobretudo de Aristóteles. A compreensão dela como algo objetivo e definido é um equívoco. Platão, ao pensar a obra como um corpo vivo, já mostra uma instabilidade da forma (embora não pense, talvez aparentemente, o código). Daí Emmanuel Carneiro Leão encaminhar a compreensão da forma destacando o vigor, que, certamente, está na tensão limite/não-limite, verdade/não-verdade. Diz: "ambas impregnam toda forma. Forma aqui não se opõe nem se exclui, mas se compõe e inclui o conteúdo. A forma é o vigor da unidade do candelabro articulada nos primeiros versos. Nesse vigor a poesia faz brilhar a beleza do candelabro. Embora não acenda o candelabro, ela permite que apareça a luz de sua beleza" (1).
- Referência:
- (1) LEÃO, Emmanuel Carneiro. "Existencialismo e Literatura". In: Aprendendo a Pensar. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 167.
6
- Todo vivente é uma forma da Vida, todo sendo é uma forma do Ser e de ser, todo real é uma forma da realidade. Porém, só há forma poética quando nos viventes, nos sendos, nos reais, se fizer presente concretamente a linguagem e sentido do Ser, horizonte de referência e sentido das formas. A tal referência os gregos denominaram morphé.
7
- "A forma é uma linha instável porque a realidade, em seu vigorar incessante, em seu mudar irrefutável, não pode jamais ser reduzida a um conceito e/ou a uma essência abstrata, generalizante. A forma se baseia na concepção da obra como um organismo, um objeto, cuja ação se determina pelo funcionar do sistema ou pela teoria em que se estabelece o que é organismo" (1).
- Referência:
- (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O mito de Cura e o ser humano". In: -----. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 226.
8
- "Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma , nada me existe. E - se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece, mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu. Quem sabe nada existiu" (1).
- Referência:
- LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH, 3. e. Rio de Janeiro: Sabiá, 1964, p. 11.
9
- "Para e no sagrado é estranha e inadmissível a distinção de superior e inferior. E é então que ele se distancia cada vez mais, um distanciamento que consiste, em verdade, no seu esquecimento e perda de sentido. O esquecimento do ser, do sentido do que somos, é o esquecimento do sagrado. Que é a arte hoje senão o testemunho pungente desse esquecimento? Assim se pensa. Mas não seria a verdadeira arte o testemunho vigoroso da presença constante do sagrado, pois não é a essência da arte o sagrado? Quanta obra de arte vazia, tentando, inutilmente, preencher esse esquecimento pelo jogo fútil e mirabolante das formas técnicas. Mas ainda serão essas obras obras de arte? Não serão meros jogos formais que fazem a alegria e fortuna dos donos de galerias?" (1).
- Referência:
- (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "A presença constante do sagrado". In: https://travessiapoetica.blogspot.com.br/ postado em 23 de fevereiro de 2017.
10
- "A questão narrativa deve ser referenciada às questões e não e jamais às formas, porque estas não passam do que no vigorar da presença implica a instável linha do limite. A forma é uma linha instável porque a realidade, em seu vigorar incessante, em seu mudar irrefutável, não pode jamais ser reduzida a um conceito e / ou a uma essência abstrata, generalizante. A forma se baseia na concepção da obra como organismo, um objeto, cuja ação se determina pelo funcionar do sistema ou pela teoria em que se estabelece o que é organismo" (1).
- Referência:
- (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "O mito de Cura e o ser humano". In: .... .Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 226.
11
- "Toda presença, operar da palavra cantada, enquanto ritmo, se faz presente como vigorar poético manifestativo, como doação (presente). Por isso, toda forma, enquanto poética, é musical. A palavra cantada não é algo que acontece ou não em nossa vida, somos radicalmente musicais" (1).
- Referência:
- (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Ulisses e a Escuta do Canto das Sereias”. In: -----. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 180.
12
- "Pensando o sentido do Ser a partir do nada, projeta em novos horizontes o entendimento tradicional da arte, baseado nas formas ou na sensibilidade (aisthesis); Seu vocabulário vai-se depurando da carga técnico-conceitual, passando a elaborar seu pensamento numa linguagem mais simples, profunda e imantizada pelo pensamento poético (A título de exemplo, leia-se “O caminho do campo” e "A coisa") (1).
- Referência:
