Hermenêutica

De Dicionrio de Potica e Pensamento

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" Muitos são os sentidos da hermenêutica. Sua aplicação, hoje cada vez maior, varia de acordo com a conjuntura histórica e os objetivos a serem atingidos. Por que a hermenêutica é tão complexa e seus usos tão variados? Acontece que ela não se resume, de acordo com os níveis de entendimento, a um simples método ou a procedimentos interpretativos. A hermenêutica é antes e acima de tudo uma questão.
Hermenêutica, arte da interpretação, está etimologicamente, de um lado, ligada ao verbo grego hermeneuein, que significa: exprimir seu pensamento; fazer conhecer; interpretar, traduzir; comunicar-se, e de outro, ao deus Hermes. Este é um mito rico de significações, onde destacamos: mensageiro entre os deuses e os mortais; deus dos caminhos da luz e dos caminhos das trevas; revelador do conhecimento (mas nunca diz toda a verdade); ligado à alquimia e à adivinhação. Esta multiplicidade de sentidos se faz presente nas vicissitudes da hermenêutica" (1).


Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "A questão hermenêutica". In: -------. Tempos de Metamorfose. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 17.

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"A situação que faz da hermenêutica uma questão é, numa primeira aproximação, a relação do leitor com o texto. Está ligada ao significado de hermeneuein como interpretar e traduzir. Dos dois referentes da situação - leitor] e texto -, é este último o que em primeiro lugar apresentou problemas de ordem diversa. Um texto, desde que produzido, incorpora alguns dados, diante dos quais, o leitor tem que tomar posição. Estes dados podem ser internos ou externos e se fazem sentir mais difíceis para compreender, sobretudo, quando há um grande distanciamento histórico. Os externos dizem respeito às referências contextuais inerentes à época de sua elaboração. Já os internos apontam para as variações textuais, decorrentes da reprodução pelos copistas e da conservação do texto, e para a mudança de significados de certos vocábulos, uma vez que uma língua é um todo dinâmico" (1).


Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "A questão hermenêutica". In: -------. Tempos de Metamorfose. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 18.



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"À articulação em que se dá a compreensão dessa mútua e inseparável relação de ser e homem pela existência chamamos hermenêutica. Como compreensão da existência, a hermenêutica articula o sentido do ser, considera-o em toda sua ambiguidade e não lhe impõe resistências que não sejam dele mesmo advindas!" (1). "Não há, pois, na hermenêutica qualquer característica de intencionalidade, uma vez que ela não é fruto da consciência subjetiva, mas se encontra numa dimensão de pré-compreensão do próprio Dasein, que nós mesmos somos" (2).
Hermes, ao transcender os domínios do caos e do cosmos reúne-os como linguagem do sentido e do não-sentido. "Hermes é o nome divino para a instalação do domínio do mistério em meio à vida ensolarada do cotidiano" (3).


- Manuel Antônio de Castro


Referências:
(1) AGUIAR, Werner. Música: poética do sentido. Tese de Doutorado. Faculdade de Letras da UFRJ. Pós-Graduação em Ciência da Literatura. Área de Poética, 2004, p. 117.
(2) Idem, p. 5
(3) Idem, p. 10.

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À manifestação da compreensão da referência da essência do humano e Ser, enquanto linguagem, dá-se o nome de hermenêutica poético-ontológica. Esta se diferencia de outras como a hermenêutica epistemológica ou filosófica, a jurídica, a teológica. Pensar hermenêutica é pensar Hermes ou a Palavra como lugar, isto é, a transcendência do ser humano enquanto abertura de mundo. Na abertura ou transcendência o ser humano acontece enquanto entre-ser. Interpretar poeticamente é vigorar sempre no horizonte de articulação de ser e entre-ser (ex-istência) enquanto linguagem ético-poética, onde a compreensão enquanto sentido implica o éthos e a poíesis do ser. Por isso, interpretar é interpretar-se a partir da medida de todas as dimensões e medidas: o ser/ nada ou a realidade de toda realização como real. Enquanto éthos e poíesis o ser advém sempre como lógos. Daí que interpretar, no sentido poético-hermenêutico, é dialogar. O que vigora no diálogo poético-hermenêutico é a escuta do lógos. Sem autoescuta do lógos não há diálogo poético. Todas as obras de arte solicitam e aguardam o diálogo poético.


- Manuel Antônio de Castro


Ver também:


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"Aqui chegamos ao sentido originário de Hermenêutica. Na raiz de seu exercício, a hermenêutica não é nem teoria nem processo de interpretação. É o acontecer da Linguagem no Mistério na estrutura da língua. Há sempre hermenêutica. O que não há sempre é interpretação consciente de hermenêutica. Pois essa só se dá quando a Linguagem do Mistério vigente na interpretação recolhe em si todas as línguas das palavras de um texto" (1).


Referência
(1) LEÃO, Emmanuel Carneiro. Aprendendo a pensar I. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 219.


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Ronaldes de Melo e Souza distingue muito bem uma hermenêutica ontológica de uma hermenêutica metodológica ao comentar a hermenêutica filosófica de Gadamer através de algumas oposições esclarecedoras: 1) Verdade x método, 2) Ontologia x metodologia, 3) Hermenêutica x epistemologia. Ele faz aparecer a hermenêutica ontológica na medida em que a vai contrapondo à epistemologia. Outra faceta que vai aparecer é a ligação da hermenêutica ontológica com a ética. Essa dimensão é sutil porque a ética não é algo ao lado da hermenêutica ontológica, mas seu traço mais fundamental. Isso se pode compreender na afirmação de Souza: "...compreender é compreender-se" (1). A hermenêutica epistemológica se decide no ato de interpretar. Essa pode se abrir para a ontologia da compreensão ou pode simplesmente ficar numa epistemologia da interpretação. A hermenêutica ontológica só acontece no dialogar, pois todo dialogar ontológico é dialogar-se, isto é, dar-se à escuta do logos. Enfim: interpretar-se, dialogar-se, compreender-se.


- Manuel Antônio de Castro


Referência:
(1) SOUZA, Ronaldes de Melo e. "A ética concriativa de Gadamer". In: Revista Tempo Brasileiro, nº 94. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1988, pp. 69-86.

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“A hermenêutica da leitura está em perceber o quanto de todo há em cada parte, reter na porção de um punhado de palavras a musicidade de uma obra de arte” (1).


Referência:
(1) PESSANHA, Fábio Santana. A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2013, p. 156.


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"A relação leitor / texto exige a intervenção explícita de uma interpretação, mas ainda uma interpretação relativa ao texto, em sua organização e produção histórico-textual. Porém, havia uma outra dimensão que fazia comparecer a interpretação, não porque o texto não fosse legível , mas porque o seu significado era misterioso. É aí que se faz presente o mito de Hermes, como o que medeia a linguagem dos deuses para a língua dos mortais. Neste caso, a hermenêutica, embora ainda só se atenha ao texto, já articula uma realidade transcendente e outra imanente. Parte-se do domínio gramatical para o correto encaminhamento do sentido figurativo ou alegórico. À correta interpretação do que está expresso simbolicamente, à manifestação dessa outra realidade do texto deu-se o nome de exegese. Esta metodologia é sobretudo desenvolvida pelo cristianismo, diante dos textos sagrados reunidos na Bíblia, considerados a Palavra de Deus" (1).


Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "A questão hermenêutica". In: -------. Tempos de Metamorfose. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 18.


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Diz Carneiro Leão sobre a hermenêutica originária: "Por isso se impõe sobretudo questionar o próprio poder da ciência em sua impotência de pensar. É o que nos proporciona uma hermenêutica originária. O verbo hermenéuein significa trazer mensagens. O hermeneus, o mensageiro, pode ser posto em referência com Hermes, o mensageiro dos deuses. Ele traz e transmite a mensagem do destino que trama as vicissitudes da história de homens e deuses. Nem toda interpretação é uma hermenêutica (originária). Somente a que descer até o vigor do mistério que estrutura a história" (1). "O propósito desta hermenêutica não é corrigir ou substituir-se à ciência. Nem mesmo é o diálogo pelo diálogo, mas exclusivamente o que no diálogo se faz linguagem: a identidade que misteriosamente reivindica de modo diferente, a nós modernos e aos gregos antigos, por ter aviado a aurora do pensamento no dia do Ocidente" (2).


- Manuel Antônio de Castro


Referências:
(1) LEÃO, Emmanuel Carneiro. Os pensadores originários. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 15.
(2) Idem, p. 16.
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