Loucura
De Dicionrio de Potica e Pensamento
(Diferença entre revisões)
(→3) |
(→4) |
||
(16 edições intermediárias não estão sendo exibidas.) | |||
Linha 5: | Linha 5: | ||
: Referência: | : Referência: | ||
- | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Amar e Ser". In: | + | : (1) CASTRO, Manuel Antônio de.''' "[[Amar]] e [[Ser]]". In: -------. [[Arte]]: o [[humano]] e o [[destino]]. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 294.''' |
== 2 == | == 2 == | ||
Linha 14: | Linha 14: | ||
== 3 == | == 3 == | ||
- | : Um modo [[simples]] da [[ciência]] [[definir]] a [[loucura]] é: quando não se age seguindo a [[razão]], ou seja, a [[ação]] motivada por [[algo]] não [[racional]]. Porém, [[Platão]] no | + | : Um modo [[simples]] da [[ciência]] [[definir]] a [[loucura]] é: quando não se age seguindo a [[razão]], ou seja, a [[ação]] motivada por [[algo]] não [[racional]]. Porém, [[Platão]] no [[Diálogo]] [[Fedro]] trata de três [[loucuras]]. Conferir a [[fala]] de Sócrates, [[Fedro]], 244, a, b, c; d; 245, a, b; 249 d. Em resumo: |
- | : 1a. É uma [[loucura]] inspirada pelos [[deuses]]: "Efectivamente, é em [[estado]] de | + | |
- | : 2a. Quando se possui o [[dom]] de | + | : 1a. É uma [[loucura]] inspirada pelos [[deuses]]: "Efectivamente, é em [[estado]] de delírio que as profetisas de Delfos e as sacerdotisas de Dódona prestam grandes serviços à [[Grécia]]" (1); |
- | : 3a. | + | |
- | : Se bem observarmos, o que se denomina [[loucura]] nestas [[dimensões]], são [[ações]] que [[nada]] têm de [[racional]], pois são [[diferentes]] [[manifestações]] do [[sagrado]]. Estas três [[loucuras]] ultrapassam o [[poder]] da [[razão]]. E manifestam um [[outro]] [[poder]], que não depende do [[ser humano]], mas se manifesta no [[ser humano]]. Certamente para o [[grego]] não havia essa [[oposição]], uma vez que | + | : 2a. Quando se possui o [[dom]] de profetizar o [[futuro]]. São os [[seres humanos]] denominados [[Profetas]]. "...o delírio profético manifestou-se em alguns predestinados e encontrou o meio de afastar esses males, precisamente pelo recurso às preces dirigidas aos [[deuses]] e pela [[prática]] de cerimônias em seu louvor" (2); |
+ | |||
+ | : 3a. É a [[loucura]] inspirada pelas [[Musas]]. Está [[presente]] em todos os grandes [[criadores]] de todas as [[artes]]. Aí se podem incluir os grandes [[pensadores]]. É quando eles são tomados e inspirados pelas [[Musas]]. Diz Sócrates: "Há ainda uma terceira [[espécie]] de [[loucura]], aquela que é inspirada pelas [[Musas]]" (3); | ||
+ | |||
+ | : 4a. É a [[loucura]] (delírio) diante da [[Beleza]]. Diz Sócrates: "Do que dissemos atingimos a quarta [[espécie]] de delírio, sim, do delírio: quando, vivendo neste [[mundo]], se consegue vislumbrar alguma [[coisa]] [[bela]]. A [[alma]] recorda-se então da [[Beleza]] [[real]], recebe asas e deseja subir cada vez mais alto, como se fosse uma ave. Impossibilitada de conseguir, negligencia as [[coisas]] terrenas, assim dando a [[parecer]] que não passa de um [[louco]]! Por isso, entre as várias [[formas]] de entusiasmo, esta revela-se como sendo a mais perfeita e a que melhores consequências acarreta, tanto para quem a possui como para quem dela participa, e, por isso, se costuma também [[dizer]] que os possuídos por este entusiasmo se designam por [[amantes]]" (4). | ||
+ | |||
+ | : Em relação à quarta [[loucura]], podemos notar que ela acontece entre dois extremos: [[paixão]] e [[ilusão]], pois [[beleza]] está ligada ao [[amor]], a [[Eros]], logo faz-se presente com seu [[poder]] o [[sagrado]]. Se bem observarmos, o que se denomina [[loucura]] nestas [[dimensões]], são [[ações]] que [[nada]] têm de [[racional]], pois são [[diferentes]] [[manifestações]] do [[sagrado]]. Estas três [[loucuras]] ultrapassam o [[poder]] da [[razão]]. E manifestam um [[outro]] [[poder]], que não depende do [[ser humano]], mas se manifesta no [[ser humano]]. Certamente para o [[grego]] não havia essa [[oposição]], uma vez que ele havia o ''[[Logos]]'', que foi reduzido pela [[tradução]] [[latina]] à ''ratio'', isto é, à [[razão]]. Esta elimina, desde o [[Iluminismo]] [[moderno]], a [[dimensão]] do [[sagrado]]. O que podemos concluir é que diante das quatro [[manifestações]] da [[loucura]] (delírio), a [[razão]] conforme se compreende na [[modernidade]] é impotente. | ||
Linha 25: | Linha 31: | ||
: Referências: | : Referências: | ||
- | : (1) PLATÃO. | + | : (1) [[PLATÃO]]. [[Fedro]]. Trad. Pinharanda Gomes, 5.e. Lisboa: Guimarães Editores, 1994, p. 53, 244 a. |
+ | |||
+ | : (2) [[PLATÃO]]. [[Fedro]]. Trad. Pinharanda Gomes, 5.e. Lisboa: Guimarães Editores, 1994, p. 55, 244 d. | ||
+ | |||
+ | : (3) [[PLATÃO]]. [[Fedro]]. Trad. Pinharanda Gomes, 5.e. Lisboa: Guimarães Editores, 1994, p. 56, 245 a. | ||
+ | |||
+ | : (4) [[PLATÃO]]. [[Fedro]]. Trad. Pinharanda Gomes, 5.e. Lisboa: Guimarães Editores, 1994, p. 65, 249 d. | ||
+ | |||
+ | == 4 == | ||
+ | |||
+ | : a [[perfeição]] não me importa | ||
+ | : eu prefiro me [[jogar]] de cabeça | ||
+ | : na [[loucura]] que é a [[vida]] (1) | ||
+ | |||
- | : | + | : Referência: |
- | : ( | + | : (1) KAUR, rupi. '''meu [[corpo]] / minha [[casa]]. Trad. Ana Guadalupe. São Paulo: Editora Planeta, 2020, p. 115. ''' |
Edição atual tal como 22h24min de 23 de Abril de 2025
Tabela de conteúdo |
1
- "A medida da loucura não é a razão, mas o sem-causa, o sem fundamento" (1).
- Referência:
- (1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Amar e Ser". In: -------. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 294.
2
- Temos o caso da loucura. Esta não se encaixa na definição do homem como animal racional e aí ele começa a ser excluído do sistema, porque a loucura é humana e só o homem pode ser louco, mas não é racional. A loucura é uma das características mais tradicionais e originárias do ser humano. No fundo, o racional nada tem a dizer sobre a loucura, até porque a loucura em seu sentido mais radical indicia a eclosão do homem como linguagem.
3
- Um modo simples da ciência definir a loucura é: quando não se age seguindo a razão, ou seja, a ação motivada por algo não racional. Porém, Platão no Diálogo Fedro trata de três loucuras. Conferir a fala de Sócrates, Fedro, 244, a, b, c; d; 245, a, b; 249 d. Em resumo:
- 1a. É uma loucura inspirada pelos deuses: "Efectivamente, é em estado de delírio que as profetisas de Delfos e as sacerdotisas de Dódona prestam grandes serviços à Grécia" (1);
- 2a. Quando se possui o dom de profetizar o futuro. São os seres humanos denominados Profetas. "...o delírio profético manifestou-se em alguns predestinados e encontrou o meio de afastar esses males, precisamente pelo recurso às preces dirigidas aos deuses e pela prática de cerimônias em seu louvor" (2);
- 3a. É a loucura inspirada pelas Musas. Está presente em todos os grandes criadores de todas as artes. Aí se podem incluir os grandes pensadores. É quando eles são tomados e inspirados pelas Musas. Diz Sócrates: "Há ainda uma terceira espécie de loucura, aquela que é inspirada pelas Musas" (3);
- 4a. É a loucura (delírio) diante da Beleza. Diz Sócrates: "Do que dissemos atingimos a quarta espécie de delírio, sim, do delírio: quando, vivendo neste mundo, se consegue vislumbrar alguma coisa bela. A alma recorda-se então da Beleza real, recebe asas e deseja subir cada vez mais alto, como se fosse uma ave. Impossibilitada de conseguir, negligencia as coisas terrenas, assim dando a parecer que não passa de um louco! Por isso, entre as várias formas de entusiasmo, esta revela-se como sendo a mais perfeita e a que melhores consequências acarreta, tanto para quem a possui como para quem dela participa, e, por isso, se costuma também dizer que os possuídos por este entusiasmo se designam por amantes" (4).
- Em relação à quarta loucura, podemos notar que ela acontece entre dois extremos: paixão e ilusão, pois beleza está ligada ao amor, a Eros, logo faz-se presente com seu poder o sagrado. Se bem observarmos, o que se denomina loucura nestas dimensões, são ações que nada têm de racional, pois são diferentes manifestações do sagrado. Estas três loucuras ultrapassam o poder da razão. E manifestam um outro poder, que não depende do ser humano, mas se manifesta no ser humano. Certamente para o grego não havia essa oposição, uma vez que ele havia o Logos, que foi reduzido pela tradução latina à ratio, isto é, à razão. Esta elimina, desde o Iluminismo moderno, a dimensão do sagrado. O que podemos concluir é que diante das quatro manifestações da loucura (delírio), a razão conforme se compreende na modernidade é impotente.
- Referências:
4
- Referência: