Imagem-questão

De Dicionrio de Potica e Pensamento

Edição feita às 22h02min de 6 de Novembro de 2020 por Profmanuel (Discussão | contribs)

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O que é imagem-questão? É uma imagem-poética que se torna verbo e presença para manifestar de modo vivo a questão ou questões. Por isso também podemos nomeá-la imagem-poética, na medida em que toda poética pensa o acontecer do ser. Esse dizer é o que quis concretizar com verbo e presença, pois no caso trata-se da essência do agir e pensar. Os mitos e as narrativas (pois estes estão essencialmente interligados, uma vez que originariamente todo mito é uma narrativa) desdobram-se em personagens-questões e imagens-questões. Tome-se Grandes sertão: veredas de Rosa, por exemplo. No título de sua narrativa, a imagem Sertão e a imagem veredas, em verdade, nos apresentam questões, pois aparecem como o fundo em que a personagem-questão Riobaldo experiência as questões que tais imagens-questões suscitam, apresentam. Tomando outro exemplo, no famoso romance de Machado de Assim Dom Casmurro, a imagem-questão do título Casmurro é a imagem-poética para manifestar as questões experienciadas por Bentinho. Estão essencialmente interligadas as imagens-questões e as personagens-questões.


- Manuel Antônio de Castro

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O poder e vigor da imagem-questão está no fato de que congrega: tempo, linguagem, memória, verdade, narrar. Por isso ela repousa, como quietude, enquanto tempo ontológico, "entre" o ser escrita e o ser lida, dialogada, entre o ser vista, pensada, figurada e o ser narrada, mas onde ela ao ser experienciada, por quem vê ou lê, como escuta do que somos e não somos, ambiguamente se retrai em sua fala silenciosa e silente. A imagem-questão é um modo concentrado e verbal de poiesis, enquanto narrar. Como tal, concentra a fala de toda escuta e aguarda o desvelo poético da leitura do leitor ou daquele que vê, abertos à escuta do logos, ou seja, à fala da Memória. Quando o diálogo acontece e, portanto, vigora a dialética, dá-se no leitor uma aprendizagem.


- Manuel Antônio de Castro

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As palavras conceituais tendem a ser unívocas. Se digo verde tem de ser verde e não amarelo, vermelho ou outra cor. Porém, a realidade não cabe nessa univocidade das palavras conceituais. Se olho para uma encosta cheia de árvores, vejo muitas variedades de verde. O conceito é pobre para dizer e manifestar essa riqueza excessiva da realidade. E nisso o mundo se torna muito mais rico e alegre e vivo e poético. Quem traz para o mundo essa riqueza excessiva da realidade é a palavra poética. E ela ainda se torna mais poética quando se nos dá como imagem-questão. Na imagem-questão o não visível do visível se manifesta inauguralmente. O não visível do visível é o mito, é a linguagem.


- Manuel Antônio de Castro

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"Toda imagem-questão surge da experienciação, compreendida como o desvelo dosentido no silêncio e do silêncio no sentido. A experienciação é opensar essencial, do qual irrompe o sabor-saber. Um saber, assim, não resultante do acúmulo de conhecimento, de assimilação do já dado, mas surgido do ainda não dado, do desconhecido que toca, que comove e atravessa o corpo" (1).


Referência:
(1) CALFA, Maria Ignez de Souza. "Imagem". In: -----. CASTRO, Manuel Antônio de (0rg.). Convite ao pensar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014, p. 123.

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"Não há nada mais real, verdadeiro e profundo do que a poesia, a grande poesia. Ela nos fala, nos leva à escuta do que somos. Ela nos propõe sempre imagens-questões a partir das quais nos alimentamos para desabrochar no que somos. Confunde-se imagem-questão com algo falso ou o ficcional, fora e sem realidade. Imagem-questão é um espelho que nos pode refletir e levar à reflexão. É o iluminar da leitura. Todos somos de algum modo Narciso, não necessariamente narcisistas" (1).


Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Leitura". In: ---------. Leitura: questões. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2015, p. 85.
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