Silêncio

De Dicionrio de Potica e Pensamento

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:O silêncio não é a falta de fala nem o excesso. O silêncio é a plenitude da fala e como plenitude não é. Deste não-é lhe advém a excessividade, que é fala. O silêncio não é, fala, dá-se fala. Fala silenciando. Quem pro-cura o silêncio encontra a fala como escuta. Quem só fala e não escuta não encontra o silêncio, que sempre se retrai e vela. O falatório só repete o falaz-tório e não procura nem trilha as veredas do silêncio. O falatório e palavrório repetem formas vazias de informação. A fala do silêncio pro-duz Cura e Sabedoria. A gramática é falatório de formas vazias. A fala do silêncio é poesia. A gramática que se queira mais do que algo formal deve-se abrir para a escuta do silêncio. Questão: Mas ainda será gramática ou se abriu para o poético?
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:O silêncio não é a falta de fala nem o excesso. O silêncio é a [[plenitude]] da fala e como plenitude não é. Deste não-é lhe advém a excessividade, que é fala. O silêncio não é, fala, dá-se fala. Fala silenciando. Quem pro-cura o silêncio encontra a fala como escuta. Quem só fala e não escuta não encontra o silêncio, que sempre se retrai e [[velar-se|vela]]. O falatório só repete o falaz-tório e não [[procura]] nem trilha as veredas do silêncio. O falatório e palavrório repetem formas vazias de informação. A fala do silêncio pro-duz [[Cura]] e [[Sabedoria]]. A [[gramática]] é falatório de [[forma|formas]] vazias. A fala do silêncio é [[poesia]]. A gramática que se queira mais do que algo formal deve-se abrir para a escuta do silêncio. Questão: Mas ainda será gramática ou se abriu para o poético?
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:- [[Manuel Antônio de Castro]]
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:"Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda [[noite]] secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem [[ouvir|ouviu]] não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem [[palavra|palavras]]" (1).
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:Cf. LEÃO, Emmanuel Carneiro. "O silêncio da fala". In: ''Aprendendo a pensar II''. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 23. "O vigor do silêncio é deixar ser o nada da realidade em toda realização de qualquer real." Ibidem, p. 27.
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:"Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo.E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras."  
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:Referências:
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:LISPECTOR, Clarice. ''Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres''. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, p. 34.
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:(1) LISPECTOR, Clarice. ''Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres''. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, p. 34.
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:O silêncio é a excessividade ontopoética do nada. A pausa não é silêncio,  mas disposição da escuta. A mudez não é silêncio porque é a falta do que ainda não se tem e se pode vir a ter. A mudez como mudez tem em si uma opacidade de anulação da fertilidade do silêncio. A mudez é estéril até que a insemine a poiesis do silêncio, porque só sabemos que alguém é mudo quando não fala, mas não pode haver fala se não houver escuta. E para haver escuta é necessário abrir-se para a fala do silêncio. O silêncio é mudo não por falta de fala, mas por excesso. Cabe a nós escutá-lo nessa excessividade criativa para que, escutando-o possamos falar. A mudez pode então ser a decisão pela escuta atenta da fala do silêncio. Emudecemos quando nada temos para dizer, mas emudecemos muito mais quando somos possuídos pela excessividade da realidade, que é o silêncio enquanto logos. Podemos emudecer quando somos tomados pelo pathos e dele podemos simplesmente dar testemunho num grito primal de dor ou paixão, então elas podem  nos jogar no abismo silencioso da morte. Emudecemos tomados pela excessividade da realidade ou pelo nada excessivo da morte, quando somos possuídos pelo eros mortal.
:O silêncio é a excessividade ontopoética do nada. A pausa não é silêncio,  mas disposição da escuta. A mudez não é silêncio porque é a falta do que ainda não se tem e se pode vir a ter. A mudez como mudez tem em si uma opacidade de anulação da fertilidade do silêncio. A mudez é estéril até que a insemine a poiesis do silêncio, porque só sabemos que alguém é mudo quando não fala, mas não pode haver fala se não houver escuta. E para haver escuta é necessário abrir-se para a fala do silêncio. O silêncio é mudo não por falta de fala, mas por excesso. Cabe a nós escutá-lo nessa excessividade criativa para que, escutando-o possamos falar. A mudez pode então ser a decisão pela escuta atenta da fala do silêncio. Emudecemos quando nada temos para dizer, mas emudecemos muito mais quando somos possuídos pela excessividade da realidade, que é o silêncio enquanto logos. Podemos emudecer quando somos tomados pelo pathos e dele podemos simplesmente dar testemunho num grito primal de dor ou paixão, então elas podem  nos jogar no abismo silencioso da morte. Emudecemos tomados pela excessividade da realidade ou pelo nada excessivo da morte, quando somos possuídos pelo eros mortal.

Edição de 23h52min de 24 de janeiro de 2009

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O silêncio não é a falta de fala nem o excesso. O silêncio é a plenitude da fala e como plenitude não é. Deste não-é lhe advém a excessividade, que é fala. O silêncio não é, fala, dá-se fala. Fala silenciando. Quem pro-cura o silêncio encontra a fala como escuta. Quem só fala e não escuta não encontra o silêncio, que sempre se retrai e vela. O falatório só repete o falaz-tório e não procura nem trilha as veredas do silêncio. O falatório e palavrório repetem formas vazias de informação. A fala do silêncio pro-duz Cura e Sabedoria. A gramática é falatório de formas vazias. A fala do silêncio é poesia. A gramática que se queira mais do que algo formal deve-se abrir para a escuta do silêncio. Questão: Mas ainda será gramática ou se abriu para o poético?


- Manuel Antônio de Castro

2

"Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras" (1).


Referências:
(1) LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, p. 34.

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O silêncio é a excessividade ontopoética do nada. A pausa não é silêncio, mas disposição da escuta. A mudez não é silêncio porque é a falta do que ainda não se tem e se pode vir a ter. A mudez como mudez tem em si uma opacidade de anulação da fertilidade do silêncio. A mudez é estéril até que a insemine a poiesis do silêncio, porque só sabemos que alguém é mudo quando não fala, mas não pode haver fala se não houver escuta. E para haver escuta é necessário abrir-se para a fala do silêncio. O silêncio é mudo não por falta de fala, mas por excesso. Cabe a nós escutá-lo nessa excessividade criativa para que, escutando-o possamos falar. A mudez pode então ser a decisão pela escuta atenta da fala do silêncio. Emudecemos quando nada temos para dizer, mas emudecemos muito mais quando somos possuídos pela excessividade da realidade, que é o silêncio enquanto logos. Podemos emudecer quando somos tomados pelo pathos e dele podemos simplesmente dar testemunho num grito primal de dor ou paixão, então elas podem nos jogar no abismo silencioso da morte. Emudecemos tomados pela excessividade da realidade ou pelo nada excessivo da morte, quando somos possuídos pelo eros mortal.

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